Gosto de andar de autocarro. Gosto que me conduzam... Assim, tenho tempo para outras coisas, como por exemplo, ouvir conversas dos meus companheiros de viagem. Distrai-me...
Li, há uns tempos atrás, uma crónica do Hélder Pacheco, no Jornal de Notícias, intitulada "Preciosa Mediocridade". Nela abordava um dos sete pecados capitais - a preguiça. Escrevia: "No 'síndrome do banco de dentro', vê-se nos autocarros, quem quer dar menos trabalho ao traseiro e poupar 50 cm de esforço". É bem verdade!
Pois, entrei no autocarro que me levaria à Faculdade de Economia, onde iria ter uma reunião. Mal entrei, não havia um único lugar vago junto à coxia. Duas senhoras conversavam, uma ao lado da outra, separadas apenas pela... coxia. Pedi licença a uma delas e passei para o lugar junto à janela.
Prestei atenção à conversa...
- Isto de se ter um canudo, não quer dizer nada! Pensam que são mais do que os outros e às vezes sabe-se lá... Olha por exemplo, fulana... Tem o curso de História de Arte... Para que é que isso serve? Nem para dar aulas!! Uma média de entrada rasquinha... Faz-se o curso com uma perna às costas... E depois tirou outro curso... um desses só para ocupar o tempo... Claro, para onde é que ela ia? E agora entrou aqui, sabe-se lá como. Ora, nós sabemos... Porque o marido que trabalha cá deve ter mexido os cordelinhos para a "meter" aqui...
E a conversa continuou.... Sairam na mesma paragem que eu, junto ao Hospital. Atravessaram a rua, continuando com a "corta na casaca".
E eu apressei o passo. Deixei de as ouvir. E no meu trajecto até à FEP pensei: "Bolas, ainda há quem tenha tempo para falar da vida dos outros: haja pachorra para a mediocridade!"