Saturday, August 30, 2008

D.Quixote

Apúlia, 2008                                               Adelina Silva

Não o que se passa comigo… eu até sei, mas não sei se quero saber! Tal como o D. Quixote parece que persigo moinhos de vento, que ao longe se assemelham a pessoas ou a coisas. Lá ao longe parece que vislumbro algo, que não existe.
O caminho é longo, o cansaço apodera-se…

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Friday, August 29, 2008

Ao rosto vulgar dos dias


  Algures no mar do norte, 2008                                                   Adelina Silva


Monstros e homens lado a lado,

Não à margem, mas na própria vida.

Absurdos monstros que circulam

Quase honestamente.

Homens atormentados, divididos, fracos.

Homens fortes, unidos, temperados.

*

Ao rosto vulgar dos dias,

A vida cada vez mais corrente,

As imagens regressam já experimentadas,

Quotidianas, razoáveis, surpreendentes.

                            *

Imaginar, primeiro, é ver.

Imaginar é conhecer, portanto agir.

 

Alexandre O´Neill, in “Poesias Completas”, 1951/1981

Biblioteca de Autores Portugueses, Imprensa Nacional  Casa da Moeda

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Thursday, August 28, 2008

Sacanice

Acordei de mau humor. Quando é assim, o melhor é que ninguém me fale, pelo menos até fazer o luto que levou a esse estado. Não entendo porque há “certas pessoas” que têm um gosto especial em sacanear outras, tentando passar-lhes um atestado de burrice. Arre! Irra! Apre! Vade retro! Raios!
Sentada à mesa a degustar vagarosamente a minha chávena de café, tentando não olhar para ninguém para não explodir por coisa alguma, lembrei de um poema do Jorge de Sena (10/10/73), “No País dos Sacanas”:

Que adianta dizer-se que é um país de sacanas?

Todos os são, mesmo os melhores, às suas horas,

e todos estão contentes de se saberem sacanas.

Não há mesmo melhor do que uma sacanice

para poder funcionar fraternalmente

a humidade da próstata ou das glândulas lacrimais,

para além das rivalidades, invejas e mesquinharias

em que tanto se dividem e afinal se irmanam.


 

Dizer-se que é de heróis e santos o país,

a ver se se convencem e puxam para cima as calças?

Para quê, se toda a gente sabe que só asnos,

ingénuos e sacaneados é que foram disso?

 

Não, o melhor seria aguentar, fazendo que se ignora.

Mas claro que logo todos pensam que isto é o cúmulo da sacanice,

porque no país dos sacanas, ninguém pode entender

que a nobreza, a dignidade, a independência, a

justiça, a bondade, etc., etc., sejam

outra coisa que não patifaria de sacanas refinados

a um ponto que os mais não são capazes de atingir.

No país dos sacanas, ser sacana e meio?

Não, que toda a gente já é pelo menos dois.

Como ser-se então nesse país? Não ser-se?

Ser ou não ser, eis a questão, dir-se-ia.

Mas isso foi no teatro, e o gajo morreu na mesma.

 

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Wednesday, August 27, 2008

O que se passa comigo?

O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas.

Essas e o que faz falta nelas eternamente;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço, cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser…

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto…
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo. íssimo, cansaço

Álvaro de Campos

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Tuesday, August 26, 2008

O parvalhão (do corpo)


Berlengas, 2008                                Adelina Silva

Depois de ter calcorreado a ilha das Berlengas e de ter descido uma escadaria infindável até ao forte de S. João Baptista, debaixo de uma chuva miúdinha (ou molha-tolos!), o corpo acusou a idade. Enquanto descansava o físico e me preparava psicologicamente para fazer o percurso inverso, sendo que dessa vez seria sempre a subir, tal como a subida da Torre na Volta a Portugal em Bicicleta (mas aqui seria a pé!), lembrei-me deste poema de Alexandre O’Neill:

Estirado na areia, a olhar o azul,

ainda me treme o parvalhão do corpo,

do que houve que fazer para ganhar o nosso,

do que houve que esburgar para limpar o osso,

do que houve que descer para alcançar o céu,

já não digo esse de Vossa Reverência,

mas este onde estou, de azul e areia,

para onde, aos milhares, nos abalançamos,

como quem, às pressas, o corpo semeia.


 

 

Alexandre O´Neill, in “Poesias Completas”, 1951/1981

Biblioteca de Autores Portugueses

Imprensa Nacional  Casa da Moeda

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Monday, August 25, 2008

O Corpo não espera

Magaluff, 2008                                                                   Adelina Silva

O corpo não espera. Não. Por nós

ou pelo amor. Este pousar de mãos,

tão reticente e que interroga a sós

a tépida secura acetinada,

a que palpita por adivinhada

em solitários movimentos vãos;

este pousar em que não estamos nós,

mas uma sede, uma memória, tudo

o que sabemos de tocar desnudo

o corpo que não espera; este pousar

que não conhece, nada vê, nem nada

ousa temer no seu temor agudo…


 

Tem tanta pressa o corpo! E já passou,

quando um de nós ou quando o amor chegou.

 

Jorge de Sena

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Sunday, August 24, 2008

A Traição

Apúlia, 2008                                                                       Adelina Silva

A Traição


 

quando do cavalo de tróia saiu outro

cavalo de tróia e deste um outro

e destoutro um quarto cavalinho de

tróia tu pensaste que da barriguinha

do último já nada podia sair

e que tudo aquilo era como uma parábola

que algum brejeiro estivesse a contar-te

pois foi quando pegaste nessa espécie

de gato de tróia que do cavalo maior

saiu armada até aos dentes de formidável amor

a guerreira a que já trazia dentro em si

os quatro cavalões do vosso apocalipse

 

Alexandre O’Neill (1924-1986)

in “Poesias Completas”

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Saturday, August 23, 2008

Sigamos o cherne!… ou desçamos ao cerne da questão


Apúlia, 2008                                                                      Adelina Silva


 

(Depois de ver o filme O Mundo do Silêncio de Jacques-Yves Cousteau)

 

Sigamos o cherne, minha amiga!

Desçamos ao fundo do desejo

Atrás de muito mais que a fantasia

E aceitemos, até, do cherne um beijo,

Senão já com amor, com alegria…

 

Em cada um de nós circula o cherne,

Quase sempre mentido e olvidado.

Em água silenciosa de passado

Circula o cherne: traído

Peixe recalcado…

 

Sigamos, pois, o cherne, antes que venha,

Já morto, boiar ao lume de água,

Nos olhos rasos de água,

Quando, mentido o cherne a vida inteira,

Não somos mais que solidão e mágoa…

Alexandre O’Neill

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Friday, August 22, 2008

(Just have a little) Patience

Óbidos, 2008                                                        Adelina Silva

I’m still hurting from a love I lost,
I’m feeling your frustration,
That any minute all the pain will stop,
Just hold, me close, inside your arms, tonight,
Don’t be too hard on my emotions,
‘Cause I, need time.
My heart is numb, has no feeling.
So while I’m still healing,
Just try, and have a little patience
I really want to start over again,
I know you wanna be my salvation.
The one that I could always depend,
I’ll try to be strong believe me,
I’m trying to move on,
It’s complicated but understand me.

Patience, Take That

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Thursday, August 21, 2008

Chama, chama que eu vou…

Berlengas, 2008                                                                  Adelina Silva

Há, por vezes, gritos desesperados que nos ecoam…
Há, por vezes, gritos desesperados que não se ouvem…
Há, por vezes, gritos desesperados que não o são….
Há, por vezes, gritos desesperados que desejam atenção…

Há, por vezes, a certeza de que chamando, alguém nos responderá.

Responde, por favor, a este meu grito.

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