Acordei de mau humor. Quando é assim, o melhor é que ninguém me fale, pelo menos até fazer o luto que levou a esse estado. Não entendo porque há “certas pessoas” que têm um gosto especial em sacanear outras, tentando passar-lhes um atestado de burrice. Arre! Irra! Apre! Vade retro! Raios!
Sentada à mesa a degustar vagarosamente a minha chávena de café, tentando não olhar para ninguém para não explodir por coisa alguma, lembrei de um poema do Jorge de Sena (10/10/73), “No País dos Sacanas”:
Que adianta dizer-se que é um país de sacanas?
Todos os são, mesmo os melhores, às suas horas,
e todos estão contentes de se saberem sacanas.
Não há mesmo melhor do que uma sacanice
para poder funcionar fraternalmente
a humidade da próstata ou das glândulas lacrimais,
para além das rivalidades, invejas e mesquinharias
em que tanto se dividem e afinal se irmanam.
Dizer-se que é de heróis e santos o país,
a ver se se convencem e puxam para cima as calças?
Para quê, se toda a gente sabe que só asnos,
ingénuos e sacaneados é que foram disso?
Não, o melhor seria aguentar, fazendo que se ignora.
Mas claro que logo todos pensam que isto é o cúmulo da sacanice,
porque no país dos sacanas, ninguém pode entender
que a nobreza, a dignidade, a independência, a
justiça, a bondade, etc., etc., sejam
outra coisa que não patifaria de sacanas refinados
a um ponto que os mais não são capazes de atingir.
No país dos sacanas, ser sacana e meio?
Não, que toda a gente já é pelo menos dois.
Como ser-se então nesse país? Não ser-se?
Ser ou não ser, eis a questão, dir-se-ia.
Mas isso foi no teatro, e o gajo morreu na mesma.